segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

LUNA: a dança da individuação


Seres pacificados | Por Carla Maciel


“A minha alma está armada e apontada para a cara do sossego, pois paz sem voz não é paz, é medo!”
Provocada pela voz do grupo O Rappa, lanço um convite a revisitarmos conceitos e a um ousado passeio pelas seguintes questões: De que paz estamos falando? O que é esse estado de paz que tanto almejamos? Enquanto Tim Maia cantava aos quatro cantos do mundo que o que ele queria era sossego, O Rappa nos abre a porta para uma nova e instigante reflexão: “Qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz?”

Ainda é muito comum entender a paz como um estado de suposto sossego, quietude, ausência de movimento e, principalmente, de conflito. Em nome da manutenção do controle, do medo de arriscar-se no desconhecido de si mesmo e de poder lidar com situações e emoções conflitantes, nos conduzimos, muitas vezes, à vivência de uma falsa e ilusória paz, quase sempre muda, estéril e passiva, gerando uma legião de boas pessoas que confortavelmente esperam a paz/plenitude chegar. Para evitarmos atritos, não desagradarmos os outros e não nos expormos genuinamente no mundo, somos levados inconscientemente a desagradar a nossa natureza, desrespeitar a nossa identidade, violentar a nossa alma, gerando internamente silenciosos combates e uma sintomática dissociação. Os sintomas físicos e emocionais então se multiplicam como verdadeiros apelos à autoregulação da psique e quando vemos, caímos doentes pelas rasteiras da falsa paz.

Eis que ouvimos sussurrar nos nossos ouvidos, a voz serena de Roberto Crema nos informando que “paz é a presença de movimento, é o triunfo do processo”, o que nos ajuda a compreender que estar em paz é estar inteiro e isso dá trabalho, exige abertura, disponibilidade e movimento contínuo, enfim, é algo que se constrói árdua e processualmente. É uma tarefa para artesãos, aqueles que se envolvem, se investem no ofício e associam conhecimento à sensibilidade, tornando possível que as tensões do que é inteiro possam ser suportadas, criando/fazendo paz. Aquilo que é inteiro é pleno, saudável, sagrado, perfeito. A palavra perfeição, descende do adjetivo grego teleios, que, se traduzido ao pé da letra, significa acabado, completo, levado à integridade. Sendo assim, algo é perfeito quando funciona com todas suas partes, e não, quando corresponde a um sistema excludente. Definitivamente, paz não é sinônimo de acomodação, mas sobretudo de integração e somente com essa clareza podemos cantar com mais propriedade, engrossando o coro do Rappa, em alto e bom tom, que “é pela paz que eu não quero seguir admitindo.” A verdadeira paz só pode ser sentida via reconciliação, via equilíbrio.

Equilíbrio pressupõe movimento! Estranho? Não se lembrarmos que o equilíbrio vem de movimentos que se anulam, gerando experiências de não gravidade, instantes de silêncio, encontros com o estado de paz. Quando não nos movemos na vida, ou o fazemos eufórica e exaustivamente, nos sentimos desequilibrados. Quando a energia psíquica está bloqueada, congelada, experimentamos a desordem e uma impossibilidade de fluidez. O nosso equilíbrio físico, psíquico e espiritual depende especialmente do nosso movimento, interno e externo, na vida e entre todos. Depende de harmonia, e de sermos capazes de suportá-la.

A palavra harmonia, etimologicamente, nos remete a uma das raízes conceituais da língua grega. A silaba "har"ou "ar" significa a união dos opostos num todo. A mitologia grega nos conta que Harmonia (meio de unir) era celebrada como a deusa que promovia a conjunção das forças opostas. Ela nasce do casamento entre Ares, deus da guerra, e Afrodite, deusa do amor. É fruto, assim como o conceito de harmonia no universo musical, da tensão exata entre forças extremas. Na música, a nota perfeita, pura e harmônica emerge do tensionamento adequado das cordas. A mesma dinâmica ocorre no processo psíquico, onde a integração, portal para a saúde emocional, se dá através do reconhecimento das nossas alteridades, da comunicação entre as nossas polaridades, tão temidas, negadas e escondidas, em suma, da arte do equilíbrio.

Para nos tornarmos verdadeiros samurais, autênticos servidores da paz, precisamos, antes de tudo, sermos seres pacificados. Para tanto, que venham os movimentos, doces e/ou bárbaros, proporcionando a necessária fluidez entre os opostos, que faz parir a experiência harmoniosa e pacificadora do equilíbrio. Ainda imersa na poesia e poder das palavras de Crema, endosso: “É tempo de reconstruir o Templo da Inteireza”!

Convoquemos a cor-agem e, agindo em consonância com o coração, nos lancemos nesse desafio. Avante artesãos!

Fonte: http://www.robertocrema.net/

Carla Maciel é psicóloga (UFBA), psicoterapeuta junguiana (IJBA)) e especialista em Arteterapia pela Universidade Denis Diderot Paris VII – França. Atualmente é professora, supervisora e coordenadora da Pós-Graduação em Arteterapia Junguiana do Instituto Junguiano da Bahia.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Em tempos de... Por Hilda Nascimento

Conversava, dentro do carro, com alguém muito querido. Sentada no banco do carona eu o olhava de perfil, cabelos grisalhos revoando, a voz grave no volume perfeito, o conjunto de palavras, as marchas passadas, o cheiro do banho há pouco tomado.
- Você está angustiada?
- Não. Por quê? Estou parecendo angustiada?
- Não... é que parece que todo mundo está angustiado. Você não acha?
E assim continuamos a conversar. O trânsito não facilitava uma atmosfera suave. Atualmente, convivemos com congestionamentos dentro da proposta de mais um dia a ser vivido. Entretanto, dentro do carro, a realidade recortada tinha outro tempo. As minhas hipérboles me levam a viajar em detalhes, a maximizar os prazeres. Falei, com alguma dificuldade:
- Hoje um homem quase esmagou o pé da minha amiga com um carrinho de supermercado. Ela teve que pular pra trás e ele nem viu.
- Hoje fui sair do elevador e uma pessoa entrou com tanta velocidade que quase me atropelou. Na verdade, acho que ela também não me viu.
E olhou rapidamente pra mim. E ainda que a conversa não parasse, ainda que seu olhar tenha retornado a atenção pra a direção, eu vi os detalhes coloridos da sua íris que, lugar comum, poderiam parecer ter apenas um tom. Mas não têm. Aqueles olhos de águia contêm labirintos, câmaras, espaços vazios, nuances e temperaturas. Ali moram trechos de morte, sangue, poemas, música e águas. Continuei.
- Você não acha que todos estão se tratando muito mal uns aos outros? Não sei explicar direito... parece que todos trocam grosserias o tempo todo e isto parece normal. Em todos os lugares é assim...
- É verdade.
E me dei conta de que, dentro da bolsa, o bloco de notas com Shakespeare na capa, que ele acabara de me dar, aguardava pra ser inaugurado.
- Adorei o bloco.
- Tenho esta mania. De tempos em tempos arrumo meu gabinete e saio distribuindo coisas que descubro que não vou usar.
Aí  somou-se um sorriso. Não o riso que aperta os olhos e pulsa o peito. Um sorriso. O carro subia uma ladeira e eu não esperei mais:
- Eu gosto muito... muito de você.  
Sem novidade, ele inseriu, imediatamente, outro assunto. Imaginei que isto aconteceria. É fácil lidar com o bem querer declarado quando ele traz uma justificativa. Mas assim... sem “motivo”? Esperei que ele acabasse de falar.
- Você ouviu o que eu lhe disse? Eu gosto muito... muito de você.  Não preciso de um motivo, não estou lhe cantando, não pretendo absolutamente nada. Apenas, gosto muito de você.
E continuamos indo, como dois equilibristas cujo novelo da corda sobre a qual caminham está entre as próprias mãos. 

HILDA NASCIMENTO

Depressão: Mal do século? ? Simone Paes Coelhos Anjos

Se pensarmos que a depressão é algo novo, que nasceu há cerca de cinco a dez  anos, a resposta é não, pois, ao longo da história da humanidade muitas pessoas, inclusive de vida pública, cometeram suicídio como conseqüência de um distúrbio depressivo. Existe na literatura um livro intitulado “Dicionário de suicidas ilustres” que relaciona o nome da personalidade e o tipo de suicídio. É uma obra de interesse histórico que nos garante que depressão e suicídio, que é a pior complicação da depressão, estão em nosso mundo há muito tempo. 

Se pensarmos, entretanto no volume de casos novos, a depressão é, realmente, o mal do século. Há dez anos atrás uma previsão estatística referiu que na época em que nos encontramos atualmente a depressão seria a segunda causa de morte no planeta, só perdendo para as doenças cardiovasculares (Infarto do miocárdio e  Acidente vascular cerebral-AVC).  A previsão estatística se realizou. 

Em todo o mundo, o número de pessoas deprimidas aumenta e até onde a convicção religiosa tem o suicídio com uma compreensão diferenciada (suicídio seria oferecer a vida por uma causa sagrada), houve um aumento do número de casos.

E o que é depressão?

Uma alteração do humor que é o que dá a tonalidade afetiva ao que vivemos. Se estamos felizes, tudo é maravilhoso e se estamos tristes tudo é nebuloso. Na depressão, como o nome diz, há uma queda do humor, que é uma das funções psíquicas que regula o ritmo das funções corpóreas e isso compromete o  entusiasmo diante de todas as coisas da vida. 

O pensamento fica mais lento, há falha na memória, perda de interesse nas coisas que são preferências habituais e até diminuição do desejo sexual.

Esse quadro que se apresenta diante de nós tem duas formas de compreensão: Química e Psicológica.

Na química entende-se que há uma diminuição da disponibilidade de neuroreceptores que respondem pela regulação do humor, como a serotonina. Se houver uma diminuição da serotonina nós teremos uma inibição do humor progressiva até chegarmos à depressão em seus variáveis níveis de apresentação (Leve, Moderado e Grave).

Na psicológica nós pensaremos em Luto e Melancolia. Lembraremos que desde o nascimento nós temos perdas constantes: Útero materno, amamentação, aconchego familiar ao irmos para a escola, a infância, a adolescência, a casa paterna quando nos casamos, a liberdade completa quando temos filhos, os filhos quando crescem, a juventude, a agilidade, a saúde etc. São todos eventos previstos, porém isso não determina que todos irão vivê-los de uma forma tranqüila. Cada um lida com as perdas de uma forma particular. A forma como recebemos e como reagimos aos eventos da vida vai fazer com que soframos mais ou menos.

Uma “coleção” de dores e angústias, de choros reprimidos e gritos abafados, gera o que podemos chamar de “um caldo grosso de angústia crescente”. Um dia o copo enche e, independente do tamanho da perda daquele momento, se apresenta um desânimo crescente, uma tristeza que se avoluma, uma vontade de se isolar do mundo, se desconectar do grupo.

Nesse momento, cuidado, pois a depressão está se instalando. E quanto mais cedo procurar ajuda menor a evolução do distúrbio. Isolar-se do mundo gera insegurança e, às vezes, para retornar ao convívio social podem ser necessários anos de trabalho terapêutico.

Veja que essa segunda vertente de compreensão do distúrbio depressivo, a psicológica, não pode ser tratada com medicamentos e aí vem a necessidade da terapia, pois, na vida, a todo instante, teremos perdas, até que perderemos o nosso corpo, mas, precisamos, até lá, permanecer no rumo certo. E qual será o rumo certo?

Desde Sócrates, conhecido filósofo que viveu antes de Cristo, há o questionamento sobre o sentido da vida. Apesar de várias controvérsias, existe algo que é comum a todas as vertentes filosóficas humanistas: a vida do ser humano é para engrandecimento íntimo, para uma guerra interna e transformação interna. O homem deve aprender, a cada minuto da vida até a morte. O centro das atenções deve ser o SER  e não o TER, e o respeito mútuo é imprescindível para a paz social.   Como nós nos desviamos do real sentido da vida, há um sofrimento coletivo de questionamentos sobre o significado de tantos conflitos, privações, dores e faltas. Sem um sentido maior que justifique tudo o que vemos no mundo, ”Não dá pra ser feliz”, segundo o poeta Gonzaguinha, dá para deprimir. 

Nos últimos anos, até novos termos estão surgindo como  SUICIDOLOGIA, para estudar o volume crescente do número de casos de suicídio no mundo inteiro. Se não fundamentarmos as nossas vidas particulares e o nosso convívio social, fatalmente continuaremos a construir um mundo insuportável, com valores invertidos e exigências descabidas que geram frustração, insatisfação, desânimo e depressão. 

“Será que existe alguém ou algum motivo importante, que justifique a vida ou pelo menos esse instante?”, fustiga Kid Abelha.

Teremos que seguir, talvez, uma pequena frase que repetimos muito, mas não vivemos: “conhece-te a ti mesmo”, buscar um significado em nossas vidas, fundamentá-las filosoficamente para conseguirmos dar sentido a tudo o que vivemos e não nos desencantarmos com os infortúnios, nem nos desviarmos do objetivo da vida com as distrações que o mundo nos apresenta constantemente. Temos que construir uma forma de vida onde tenhamos um saldo emocional positivo ao longo dos dias. Isso garante a nossa satisfação em viver. Em uma harmonia compatível com as nossas 
capacidades e sem nos desviarmos do objetivo primordial da espécie humana: Evolução constante, transformação e aperfeiçoamento.

SIMONE PAES COELHOS ANJOS
Médica formada e especializada em Psiquiatria pela UFBA – Universidade Federal da Bahia. Integrante da equipe do CAPSIII em Alagoinhas e Professora da Faculdade Santíssimo Sacramento no curso de Psicologia. Autora do livro Depressão, a música de uma vida.